Ao término do dia, tilintou o telefone:- Alô?
- Janguitcho? É o Brizola!
- Fala, Briza, tudo certo?
- Tudo ótimo! Tenho uma ótima novidade!
- Manda.
- Consegui dois ingressos pra ir naquela festa a fantasia que te falei, lembra?
- Ih, lembro não...
- Aquela no Uruguai, que a Carminha tá organizando...
- Ah, sei, sei. Sério que você conseguiu? Só você mesmo!!! Me conta aí como você pilantrou dessa vez...
- Há, há, eu tenho meus contatos, você sabe. Tava no sindicato fumando “um” quando o González apareceu lá e largou os convites na minha mão. Falou que tava vazando do país... sei lá, só sei que vai ser o bixo.
- Pois é, mas eu nem tenho fantasia...
- Nem eu. Ferrou! Tá encima da hora...
- Ah, vamos pegar alguma coisa lá em casa mesmo.
- Boralá.
Pegaram o Chevette verde estacionado no Palácio e passado pouco mais de uma hora, Brizola se impacienta:
- Porra, Jango, você é uma lesma na direção. Nunca vi. Acho que você deveria se arriscar mais...aqui, ó, vira à esquerda!
- À esquerda?
- É, eu sei o que eu tô falando. Se você virar à direita, vai ferrar todo o caminho, vai retroceder! À esquerda, vai...
E assim foi Jango, sempre tranqüilo...
Chegaram sem muitos percalços no caminho. A esposa de Jango tinha saído, deixando o espaço (e o armário) livre para os dois. Como não tinham muito tempo, encheram uma mochila de tudo que viam pela frente e zarparam para o centro.
- Porra, Brizola, que confusão é essa aqui na Central?
- Sei lá, vamos ver.
E desceram do carro, eufóricos como dois adolescentes em plena puberdade, levados pelos hormônios. Chega um hippie:
- E aí, bixo! Tu que ééé o da Jangada, nénão?
- Haha, eu mesmo. Prazer.
- Porra, cara, o prazer que é meu e da terra, bixo. Toma aqui um goró pra esquentar a noite.
E foi assim que em tempos (e em goles) de dois que Jango e Brizola ficaram deveras embriagados. Bêbados. Fedendo a pinga barata. E Jango vociferava:
- Láláiáláiá, não quero choro nem vela....quero uma fiiiiiiita amarela ...gravada (sic) com o nome deeeeeeeeela...canta, Briza!

- Fica quieto, Jango. Tu ta passando vergonha, mermão!
- Eu quero é falaaaar! (sic) Quer saber, vou lá encima (aponta pra direita e depois pra esquerda) e falar com to-do mundo(sic) que ta aqui!
E então, mais bêbado que o Batman, Jango fala, fala, fala e todo mundo ouve, ouve e aplaude e alguém lá no meio disse na saída:
- Belo comício do Jango. Honrou, fez bonito!
- É, enfeitou o Central. Concordo.
Mas daí como todo bom boêmio, Brizola arruma confusão por um rabo de saia, sai correndo pela multidão e encontra o amigo.
- Bora zarpar, Janguitcho! Tão querendo me arrancar o coro ainda vivo. A guria era casada!
- Já vi essa história um milhão de vezes...vamos, vai (sic!).
Correndo, tropeçando e rindo, os dois beberrões chegam no carro e decidem se vestir com as roupas trazidas, para disfarçarem-se. Era a lógica irracional etílica.
- Mas, cacete, Jan, só tem roupa de mulher aqui!
- Você queria o quê? Catamos tudo do guarda-roupa da mulé. Veste logo e não reclama!
Seguiram a 130, 140, 150 quilômetros por hora e não tardaram a chegar en tierra de nuestro hermanos. Cocotas, sorriram de alegria; bêbados, gargalharam de um tal de “exílio” que ouviram no noticiário das sete.
- É melhor assim, Briza. Minha mulher fica puta quando vou numa festa sem ela e chego tarde...
Publicado por: Catch a Fire
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