
Do Bloco da Traição e outras marchinhas
“Tão bom morrer de amor e continuar vivendo” (Mario Quintana)
Como nem tudo que balança cai, mas geralmente o que reluz termina em briga, não poderia ter tomado outro rumo toda aquela História.
Foi assim que pra pular o carnaval, pular o feriado e escapar da esposa pra pular umas cercas, Nunes Viana saiu de Minas Gerais e veio parar na Avenida Paulista, em pleno agito da serpentina que nunca tinha visto igual. Maravilhado, equilibrou seu espírito inquieto e decidiu desbravar todo esse trópico em busca de tantas cores e daquela felicidade que jamais pensara que iria conhecer (culpa do clima do Carnaval e talvez de umas drogas que descolara na Augusta).
Pensou consigo mesmo:
- Aquele empreguinho na capitania mal dá pra pagar o pingado e a sinuquinha de fim de semana. Fora os gastos da mulé: moda lusitana está os olhos da cara nos dias de hoje. Vou é montar um bloco de carnaval e sair por aí...
Decidido, entrou na primeira galeria que viu, comprou umas botas grandes, umas penas e saiu pela Sé, convencendo a quem quer que fosse a endossar seu intento. Como Quixote, estava cego por lhe parecer tão maravilhosa a idéia:
- Viste? Carnaval vai ser todo dia, toda hora e bora sambar porque tristeza nunca mais!!
Cruzou o interior, foi de ponta a ponta do Estado, gingando e suando as lantejoulas da fantasia e agregando cada vez mais foliões. Mas como em Murphy, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se fode, Nunes foi parar em São Vicente e lá encontrou uns tais valentões, bem do estilo das músicas do Roberto Carlos (El Rey Del Cruzeiro Del Sul) que não gostaram nada daquilo.
- Estamos aqui há anos e anos e anos e mais um pouco nessas terras e lá vem esses caras querendo roubar nossa fama, nosso sucesso, NOSSO OURO? Na-nani-na-não. Nada disso. A chinela vai cantar, pessoal!!
E foi assim que lá pras bandas do Capão da Traição (e o porque da traição, fica pra outro texto...), não teve refrão que acudisse nem carro alegórico que não testemunhou a grande briga dos Emboabas, nome esse dado ao bloco forasteiro; às avessas, uma reverência tupi e uma pincelada de violência tipicamente brasileira, onde o cachimbo é de ouro... e se precisar a gente empenha.
Postado por: Kátia Frávia, no Bloco do Eu Escrevendo Sozinha na Matula.
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